Budapeste, até sua primeira metade, parecia ser a primeira boa adaptação de um livro de Chico Buarque para o cinema. O filme de Walter Carvalho, em seu primeiro trabalho solo na direção de um longa de ficção, tem dois acertos: uma caprichada composição visual e uma espécie de busca do timing literário, com uns espaços em branco no meio das cenas, como se o diretor tentasse impor o livro sobre o filme. Apesar de apresentar resultados irregulares, esse processo cria um clima raro, esquisito e bastante interessante. Principalmente porque Walter Carvalho trabalha num plano de deslocamento espacial que se despe de explicações, que permite aos personagens se libertar de um trânsito convencional.
Esse ritmo ganha os contornos de uma fotografia cheia de momentos inspirados, que ficou a cargo de Lula Carvalho, filho do cineasta. Lula faz referência direta à história do pai, um dos maiores diretores de fotografia que o Brasil já viu. Cenas como a da estátua de Lênin, com a câmera girando 180º, ou a perseguição de Leonardo Medeiros à personagem de Gabriella Hámori, de patins, estão entre as melhores. Mas as coisas não duram para sempre. Quando o filme chega a metade, o tom muda. E aí tanto os acertos visuais quanto a estranheza narrativa se perdem numa falta de habilidade de administrar a virada do protagonista, insuportável, e a inserção de elementos fantásticos no filme.
Budapeste

Budapeste, Walter Carvalho, 2009

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