Fernando Costa

Fernando Costa, com apenas 30 anos, já foi vice-presidente da União Guarulhense de Estudantes Secundaristas (UGES), Membro da executiva da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES) e vice-presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Foi assessor parlamentar durante cinco anos e responsável pela apresentação de inúmeros projetos de lei. Atualmente é editor do Jornal Primeira Página e Diretor Presidente da Agência FFC Publicidade.

21 agosto 2007

Por um modelo de comunicação democrático

Por Renato Rovai


O movimento de concentração dos meios de informação em um número cada vez menor de grupos empresariais não é algo exatamente novo. Como também não é nova a partidarização de grupos midiáticos e o seu envolvimento com golpes de fundo político. Acontece que, no caso Venezuela, tais aspectos ganharam maior dimensão. Entre outras coisas, isso se deve fundamentalmente a que, no atual ciclo da História, os aparelhos informacionais ampliaram em muito o poder que detinham antes de a sociedade ser globalizada e mundializada.
Neste novo estágio histórico, apesar de estarem cada vez menos comprometidos com os interesses da sociedade e mais vinculados a interesses mercadológicos e empresariais, os veículos de comunicação assumem a si mesmos como equivalentes da opinião pública, sendo tanto o seu espaço de manifestação como o seu representante. A partir dessa construção, buscam operar um novo tipo de democracia, que teria como característica principal ser referenciada nos meios de comunicação de massa. A isso se denomina Midiático Poder.
No Midiático Poder, os veículos de comunicação são os “representantes” legítimos da sociedade no debate público, principalmente no que se refere aos temas mais relevantes, como os de política e economia. Trata-se, no entanto, de uma substituição operada por esses veículos, estratégia de atuação midiático-política que, quando levada ao extremo, em geral tem sido derrotada, como aconteceu no caso venezuelano, nas eleições de Evo Morales, na Bolívia, e mesmo nas últimas eleições presidenciais brasileiras.
O insucesso dessas operações, no entanto, não significa que o debate a respeito da democratização dos meios e do direito à comunicação deva ser colocado em segundo plano. Ao contrário, ganha ainda mais importância. Se os intentos de ontem foram fracassados, nada garante que os de amanhã também o serão.
Por essa razão, é preciso entender o papel da mídia no atual contexto global. E os motivos que a levam a tornar-se cada vez mais o partido dos interesses dos grandes grupos econômicos e do modelo neoliberal. Na Venezuela, no ano de 2002, a mídia foi protagonista de duas tentativas de golpe para defender esses interesses. Um dos golpes, o mais discutido, foi o de 11 de abril, que denomino de midiático-militar. O outro se deu em dezembro de 2002 e janeiro de 2003, o midiático-econômico.
Aliás, é preciso registrar que alguns estudiosos só consideram como tentativa de golpe a ocorrida de 11 a 14 de abril de 2002, ocasião em que o presidente Hugo Chávez chegou a ser deposto e encarcerado. Entendo e defendo que, nos meses de dezembro de 2002 e janeiro de 2003, teve lugar outra investida golpista, mais complexa, mas nem por isso menos totalitária. Com a mídia capitaneando o processo, realizou-se por dois meses uma ação de desabastecimento de bens essenciais de consumo, principalmente para a população mais pobre, combinada com uma paralisação na produção de petróleo – que representa em torno de 50% da arrecadação fiscal do Estado venezuelano – e uma campanha de sonegação tributária. Tratou-se de um golpe midiático-econômico, a meu ver muito mais apropriado, por sua forma, à lógica e às dinâmicas daquilo que os neoliberais convencionaram chamar de “capitalismo moderno”.
Naqueles dias, os meios de comunicação privados realizaram a maior guerra informativa dos tempos modernos. “As quatro principais emissoras de TV suspenderam a programação habitual nos 64 dias desse movimento e se eliminaram os comerciais de produtos, as telenovelas, os filmes e os desenhos animados”, registra a advogada Eva Golinger. Ela ainda cita, no seu livro sobre Hugo Chávez, um estudo do professor de comunicação Luis Britto García, que calcula em 17.600 o número de anúncios publicitários contra o governo, a favor do movimento golpista e de “terrorismo midiático” veiculados por essas quatro emissoras nos 64 dias daquele evento.
Mas o que fazer para se contrapor a esse novo momento de globalização dos meios de comunicação de massa e ao seu processo de concentração? O que fazer para enfrentar os grandes aparelhos informacionais que são instrumento político de um modelo econômico e que defendem uma linha política com claros posicionamentos conservadores do ponto de vista moral, comportamental, cultural etc.?
Não me parece adequado que esse enfrentamento se dê a partir da construção de grandes aparelhos de comunicação do Estado. Isso não significa que o Estado não deva ter seus veículos. Eles são fundamentais. Mas não garantem a democratização da mídia. No caso Venezuela, por exemplo, o pós-Chávez pode até levar a uma situação semelhante à vivida na Itália nos anos Berlusconi. O caso italiano, aliás, é exemplo de que o debate do Midiático Poder não é algo apenas para ser tratado por conta das ameaças à periferia do planeta. Lá, enquanto primeiro ministro, Berlusconi teve o controle de todas as redes de canal aberto do país. Pois ele já era proprietário dos meios privados e passou a comandar, como chefe de Estado, os canais públicos.
Ao não renovar a concessão da RCTV e ao passar o controle da rede para o Estado, Chávez também fortalece a posição de Gustavo Cisneros, que passa a ser o proprietário do único grande grupo privado de TV aberta na Venezuela. Numa situação hipotética de Cisneros ou um dos seus vir a se tornar o chefe de Estado, seria vivida no país uma nova ditadura midiática.
O que se faz fundamental é apostar na proliferação de novos produtores de informação em todos os cantos e de todas as formas. Seja em rádio, TV, internet, veículos impressos etc. Um governo democrático precisa investir considerável percentual de sua receita de comunicação e de publicidade no fortalecimento de iniciativas que possam vir a tornar o maior número de pessoas também em emissores de informação.
É só dessa forma que se poderá construir uma nova rede informacional, algo como aquilo que costumo definir – utilizando-me de uma metáfora do escritor uruguaio Eduardo Galeano – como um bando de marimbondos que, atuando conjuntamente, pode derrotar um rinoceronte.
Seria uma rede de pequenas iniciativas, ampla e não-centralizada, que fosse capaz de se contrapor – pela sua riqueza, diversidade, seriedade e compromisso público – aos grandes conglomerados midiáticos. Hoje, essa utopia de muitos anos é possível de ser construída por conta dos novos recursos tecnológicos.
Não imagino que essa ação, no entanto, deva ser dissociada de um debate sobre o comportamento ético dos aparelhos midiáticos. Os veículos de informação não podem ser livres de responsabilidades. Nem livres para utilizar quaisquer recursos ou métodos para alcançar seus objetivos nos planos político e econômico, seja quando vão a um golpe, seja quando se matam por pontos na audiência.
Devem, sim, ser livres para produzir informação. Devem ser radicalmente livres. Mas precisam responder pelo que produzem, segundo critérios referentes às várias responsabilidades sociais dos diferentes meios. Veículos que receberam concessões públicas de ondas eletro-eletrônicas limitadas devem se reportar a um tipo de estatuto diferente de veículos impressos ou produzidos para internet. Esse é apenas um dos pontos. Há muitos outros.
Construir códigos e legislações que sejam eficazes para garantir a diversidade de opiniões e grupos na distribuição dos aparelhos informacionais e, ao mesmo tempo, impedir que sejam utilizados sem critérios não é censura. É dever democrático.
Há muitos caminhos para se chegar a um outro modelo. No caso brasileiro, imagino que um deles poderia ser a realização de uma Conferência Nacional de Comunicação, com encontros a partir dos municípios até instâncias maiores. Essa Conferência teria como meta construir um Sistema de Comunicação Democrática – talvez nos moldes do Sistema Único de Saúde, o SUS. Nela, seriam debatidos desde o destino dos recursos públicos para a área e os critérios para a classificação da programação da TV aberta até a limitação da propriedade cruzada em comunicação. Finalizados os seus trabalhos, suas definições seriam levadas ao Congresso Nacional para se tornarem base de um novo modelo na área.
Não há dúvida de que se trata de um desafio gigante colocar de pé uma Conferência Nacional de Comunicação, assim como fazer com que seus resultados cheguem a ser leis. Mas, para se construir um novo modelo que permita, aos diferentes segmentos da sociedade, real participação, esse pode ser um dos caminhos mais adequados, pelo seu modo democrático e sua amplitude.

Renato Rovai é editor da revista Fórum e acaba de lançar o livro "Midiático Poder – o caso Venezuela e a guerrilha informativa" (Publisher Brasil Editora).

Eu vi o “Cansei” por dentro

Por Osvaldo Bertolino*

Passei parte da tarde do dia 17 de agosto de 2007 acompanhando a manifestação do grupo “Cansei” em São Paulo. Depois, participei da entrevista coletiva de um de seus líderes, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – seção São Paulo (OAB-SP), Luiz Flávio Borges D'Urso. As várias entrevistas que fiz mostram a essência do movimento.

Cheguei à Praça da Sé às 12h30min, quando uma pequena aglomeração já ouvia um discurso inflamado do conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil — seção São Paulo (OAB-SP) João Baptista de Oliveira pedindo “a volta do Brasil de paz, sem corrupção e crime organizado”. “Mais vale ascender uma vela do que maldizer a escuridão. Viemos aqui ascender uma vela na frente da casa de Deus”, disse ele, voltando-se para a catedral que estava atrás do palco. “Os brasileiros de bem estão aqui representados”, decretou.

À frente do palco, seis pessoas formavam uma barreira com cartazes agressivos contra o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva. “Incompetente, enganador, mentiroso e falastrão”, dizia um deles. O autor, que se identificou como Paulo Roberto e disse ser industrial, afirmou que estava ali porque o governo Lula era um “desastre”. “Por quê?”, perguntei. “Porque só se vê corrupção neste país”, disse. Ao lado, Ricardo Fernandes, que se identificou como assistente administrativo, atalhou: “Eu odeio este barbudo.”

Protesto contra corrupção e bala perdida

No Palco, João Baptista Oliveira insistia que “queremos de volta o Brasil que enche nossos corações de orgulho”. “Minha filha, que se esforçou para ter um diploma, só conseguiu emprego na Europa. Agora, para eu visitar minha netinha, de um ano, preciso cruzar o oceano”, afirmou. “Chegou o Osmar Santos, que perdeu os movimentos físicos, mas não os cívicos”, disse ele, interrompendo o discurso para anunciar o locutor esportivo vítima de um grave acidente automobilístico. Mais à frente, outro cartaz dizia: “Cansei de pagar os altos salários dos políticos.” Perguntei para a portadora da mensagem: “A senhora acha que todos os políticos ganham muito?” “Eles não ganham muito, mas só atrapalham o país”, justificou.

Outro cartaz dizia: “Cansei de pagar para o avião do presidente ser seguro e o meu não.” Ao lado, Lucci, uma “secretária aposentada”, disse que estava ali porque era contra “todo esse estado de coisas”. “O que, especificamente?”, perguntei. “Ao Lula, ao PT à CUT...” Indaguei: “A senhora acha que está ajudando a melhorar o país participando desta manifestação?” “Uma ajuda nunca é demais”, respondeu ela. Do outro lado, a fisioterapeuta Luciana Leme e o marido, cirurgião, disseram que vieram da cidade de São Sebastião, litoral paulista, para a manifestação. “Viemos protestar contra a corrupção, a bala perdida e o crime organizado”, explicou Luciana.

Presidente da OAB é ligado aos tucanos

À essa altura, o palco já estava tomado por artistas, apresentadores de televisão, cantores e um mar de ternos escuros. No corredor que dava acesso ao local, câmaras e microfones dominavam a paisagem. Ouvi alguém dizer: “Os tucanos realmente conseguem mobilizar a imprensa.” Era um casal, que observava a cena com atenção. Pedi uma breve entrevista. “Não posso”, disse ele. Falei que tinha ouvido a frase sobre os tucanos e me apresentei como jornalista do Portal Vermelho. Eles riram e se dispuseram a falar desde que não fossem identificados.

Disseram que eram jornalistas e estavam ali para ver se havia público e ouvir o teor dos discursos. “Este evento é da elite, que só quer benefício para ela. Eles não estão preocupados com o povo. Preocupação social não existe para essa elite”, disse ele. Perguntei se a manifestação era uma iniciativa tucana, ele respondeu: “Claro. O presidente da OAB é ligado aos tucanos, todo mundo sabe, por isso toda a imprensa veio para cá.” O casal logo pediu licença para se retirar dizendo que não queria engrossar o número de manifestantes mobilizados pela elite.

O povo está representado aqui?

Em volta do palco, uma multidão de seguranças e moças vestindo camiseta preta com a inscrição “Cansei” dominava a cena. Perguntei para uma delas qual era a sua função ali. “Somos funcionárias do Dória (João Dória Jr, um dos líderes do grupo), mas a gente é instruída a dizer que somos voluntárias”, disse ela, reduzindo a altura da voz. Ao lado, uma mulher dava entrevista falando alto e gesticulando muito. “Cansei deste governo irresponsável e de pagar 54% de imposto em cascata”, esbravejou.

Me aproximei e perguntei: “A senhora acha que este ato é contra o governo?” “Não é contra o governo, mas é para cobrar do Lula responsabilidade com o povo”, disse ela, que se identificou como Sandra Freitas, advogada. “O povo está representado aqui?”, perguntei. “Não, mas a crise é tão brava que chegou aos pés da elite”, respondeu. “Então o ato é da elite”, emendei. “É da elite, mas a crise também chegou aos pés do pobre. A crise é tão brava que os protestos começaram pela elite”, teorizou.

Voz do palco pede “fora, Lula”

Na passarela que dava acesso ao palco, Ivete Sangalo falava com uma jovem repórter de rádio, que depois da entrevista anunciou para os ouvintes que uma multidão demonstrava ''sua indignação na Praça da Sé.” Para todos os lados, circunspectos senhores de terno acompanhavam a agitação em silêncio. Conversei com alguns e todos repetiam o discurso padrão da manifestação. Um deles disse que Lula era incompetente porque não aproveitou o bom momento da economia mundial — como fizeram a China e a Índia. “Agora a crise chegou e eu quero ver como fica”, disse.

No palco, Luiz Flávio Borges D'Urso agradecia aos “cinco mil presentes” — haviam no máximo duas mil pessoas — e repetia com ênfase que a manifestação não era contra o governo, mas “a favor do Brasil”. Às 13h, todos fizeram um minuto de silêncio. Às 13h15min, depois do culto ecumênico, Agnaldo Rayol cantou o hino nacional, terminando com um “il” de Brasil trinado e longo. Uma voz saiu do palco: “Fora, Lula!” À frente, a palavra de ordem ressoou.

Para tentar encobrir, D’urso gritava no microfone: “Viva o Brasil!” Na passarela de acesso ao palco, o tumulto voltou a se instalar. Eram os artistas deixando o local. À frente, um sujeito vestido de palhaço mostrava um cartaz com seu endereço no Orkut e seu nome: Brasilino da Silva. “Você tem esperança de que esse pessoal te contrate?”, perguntei. Ele fez sinal que não podia falar.

Popular manda Agnaldo Rayol descansar

Vi um tumulto que se aproximava de mim. Eram seguranças empurrando os jornalistas que cercavam o ator Paulo Vilhena. Por sorte, fiquei cara a cara com ele. “Você acha que este ato é contra o governo Lula?”, perguntei. Ele balançou a cabeça e hesitou. “Acho que não. Eu não sou”, disse. “Você não viu manifestações contra Lula?”, insisti. “Vi, mas eu não concordo com isso”, respondeu. Atrás dele, Agnaldo Rayol falava com os jornalistas quando uma voz alta surgiu do meio de uma pequena aglomeração de populares, de aparência totalmente distinta dos manifestantes e isolada pelos seguranças em cima de um canteiro elevado e afastado: “Está cansado, Rayol? Vai descansar!”

Algumas pessoas vestindo uma camiseta com a inscrição lembrando os mortos na tragédia do vôo da TAM protestavam contra os organizadores do ato, que proibiram a sua presença no palco para dar lugar aos artistas. Vera Lúcia Lopes, uma senhora de 67 anos, erguia solitária uma camiseta com a foto de um jovem e o nome “Cecel”. Era Marcel, de 20 anos, seu neto, assassinado no começo deste ano dentro do seu carro durante um assalto na Avenida Sapopemba. Chorando, ela disse que veio só porque a família estava trabalhando. “Alguém filmou ou entrevistou a senhora?”, perguntei. “Não, só tiraram foto”, respondeu.

Crescimento do setor de construção civil

Uma parte da trupe de animadores do ato se dirigiu ao auditório da OAB-SP, onde D’urso daria uma entrevista coletiva. No caminho, cercado por grades e seguranças, populares observavam a passagem do cortejo. Ouvi uma senhora dizer que aquilo era um ato dos “gravatas”. Era Aparecida, modelista aposentada, para quem aqueles que vaiaram Lula deveriam “ter vergonha na cara”. “Eles estão mesmo é pensando nas eleições”, disse ela. Ao seu lado, um grupo de Curitiba, que estava passando férias em São Paulo, concordou.

Suzane Martins disse que era empresária do ramo da construção civil e pediu para eu ver como o Brasil estava melhorando com Lula na Presidência analisando o crescimento do setor. “Eles querem derrubar o governo”, afirmou. Ao seu lado, o casal Nelson e Otília concordou. “É um ato contra Lula. Vaiaram o presidente várias vezes”, disse Nelson indignado. Na entrada da sede da OAB-SP, o deputado federal Vadão Gomes (PMDB-SP) disse que o ato não era contra Lula. “E o senhor, é contra Lula?” perguntei. “Sou a favor de Jesus Cristo”, desconversou.

O auditório da OAB-SP ficou tomado por jornalistas. Na mesa, além de D’urso estavam o ator Paulo Vilhena, o nadador Fernando Sherer, João Dória Jr e João Baptista Oliveira. D’urso fez um rápido balanço da manifestação. Elogiou a imprensa pela divulgação do evento, os artistas, desportistas, taxistas, trabalhadores e “todos” que estiveram no “solo sagrado da Praça da Sé” para “um ato cívico”. Mais uma vez, ele repetiu insistentemente que o ato era “a favor do Brasil” e não contra “quem quer que seja”. Sobre o “fora, Lula”, ele disse que não ouviu nada. “Pode ser coisa isolada, mas não é do movimento”, afirmou.

Descompasso entre líderes e manifestantes

Perguntei se ele tinha expectativa de contar com a participação no movimento de outras organizações da sociedade. Ele disse que sim e que estava com “vários pedidos no bolso que acabaram de chegar”. Um sujeito que se identificou como Roberto e presidente da “associação dos bacharéis de direito” pegou carona na minha pergunta para declarar seu apoio ao movimento. Depois da entrevista, fui falar com ele. Ao saber que eu era do Vermelho, pediu desculpa e disse que não falava com veículos de esquerda. “Você sabe, existem radicais em todo lugar e já fui chamado de fascista”, justificou.

Sobre o fato de o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, não abrir as portas da catedral da Sé para a manifestação, D’urso disse que foi a “mão de Deus” que levou o ato para a Praça da Sé, onde “todos puderam participar”. Quando um jornalista perguntou sobre os custos da manifestação, ele disse que ninguém estava ali por dinheiro, mas por um ideal. Durante toda a entrevista, ele se esforçou para explicar o descompasso entre o que os líderes diziam e os pronunciamentos dos participantes contra o governo Lula.

D’urso finalizou a entrevista dizendo que dentro de 15 dias falará com o ministro da Justiça e que a partir dali não havia mais motivo para críticas ao movimento. “Críticas são coisa do passado. Não há mais sombras para alguém dizer que somos contra o governo Lula, que somos golpistas. Quem disser isso, por óbvio está a favor da corrupção, da criança abandonada e da insegurança. Defendemos que a mudança deve se dar de forma ordeira”, finalizou.

Fala do presidente Lula tem peso maior

Na saída, João Dória Jr falou com alguns jornalistas. Ao contrário de D’urso, ele disse que ouviu muito bem o “fora, Lula”. “D’urso saiu com os artistas, por isso não ouviu”, justificou. Perguntei se o ato era contra o governo Lula e ele disse que não porque seu pai foi cassado pelo regime militar. “Vivi com ele o exílio na França. Pouca gente sabe disso”, afirmou. Perguntei também se a manifestação não lembraria a “Marcha com Deus pela Família e a Liberdade”. “O Cansei não é golpista”, respondeu. “O senhor está cansado de que, exatamente?”, indaguei. “Do caos aéreo, por exemplo. Cobro do governo respeito aos passageiros. Nunca cansei do governo”, disse.

Perguntei também se a declaração preconceituosa de Paulo Zottolo, presidente da sucursal brasileira da multinacional holandesa Philips, sobre o Estado do Piauí, não comprometia a credibilidade do movimento. Ele disse que todas as pessoas deveriam ser tolerantes. “A intolerância começa pelas autoridades”, justificou. “O senhor acha o Lula intolerante?”, perguntei. “Em alguns momentos ele não é tolerante”, respondeu, com fisionomia nervosa. “Quando tem uma manifestação contra o governo, por exemplo, às vezes ele reclama”, emendou. “Mas o senhor não acha que ele tem o direito de manifestar a sua opinião?”, insisti. Mais nervoso ainda, Dória Jr respondeu: “Mas ele é presidente, sua fala tem um peso muito maior.”

Alguém precisa trabalhar neste país

Perguntei ainda a sua opinião sobre a decisão do arcebispo dom Odílio Scherer de não permitir o ato na catedral. “É uma situação estranha, porque fiz passeata na minha juventude e nunca tive notícia de proibição deste tipo. Foi bom, porque ele levou o ato para a Praça da Sé, onde coube mais gente. Acho que ele deveria entender que o ato não era político, não tinha bandeira de partidos e nem manifestações a favor ou contra este ou aquele candidato”, falou.

Na saída para a rua, todos foram escoltados por seguranças particulares. Ao lado, uma vistosa viatura da empresa “Homens de Preto” esperava a passagem. “Esse Dória tem dinheiro para caramba”, comentou um jornalista ao meu lado. As escadarias da catedral da Sé já estavam ocupadas por outra manifestação. Eram mulheres e policiais aposentados protestando contra a degradação dos serviços do setor e os baixos salários. “Serra: exterminador de policiais paulistas”, dizia um cartaz.

Mais adiante, na Praça Ramos de Azevedo, os metroviários começavam a chegar para uma manifestação também contra Serra. Dei mais alguns passos e uma jovem me estendeu a mão perguntando: “Tudo bem, meu jovem? Estava na manifestação do Cansei?” Era uma daquelas meninas que ganham a vida desempenhando um papel degradante a fim de arrastar clientes para as financeiras. Perguntei: “E você, foi na manifestação do Cansei?”. “Não, alguém precisa trabalhar neste país”, respondeu.
*Osvaldo Bertolino, Jornalista
Publicado originalmente no Portal vermelho