Por Fernando Costa
Parece que o "Cansei" não comoveu setores da mídia e da sociedade, o fato de não haver políticos de alta graduação, e tampouco intelectuais que se prestem a participar de um movimento pouco orgânico e com prazo de validade, faz com que estes setores não se concentrem em jogar peso político efetivo no movimento, liderado pelo empresário e promotor de eventos João Dória Jr. Este que, nos últimos dias se reuniu com inúmeros políticos do PSDB, em defesa do movimento. “Não somos oposição. Somos pelo resgate da solidariedade. O movimento está ultrapassando fronteiras e se expandindo por toda a sociedade”, disse Dória sobre o “Cansei”.
A prova do pouco apoio, inclusive na oposição, se resume ao comentário do ex-governador paulista Cláudio Lembo (DEM), que afirmou: “Deve ter soprado de Campos de Jordão, meca fria da breguice endinheirada de São Paulo, os novos ventos da campanha “Cansei”, capitaneada pela camada superior da “elite branca” sulista. Empresários e mauricinhos paulistas, acostumados a restaurantes na Rua Amauri e Vila Nova Conceição, com suas adegas climatizadas, contas surreais e garçons servis, finalmente se dizem cansados da “impunidade”, do “descaso”, das “balas perdidas”. O ex-governador finaliza apontando que o Cansei é ridículo porque a burguesia paulista é ridícula.
Alguns (como eu) classificam o Cansei como uma movimentação que resgata o clima golpista de 64. São setores da elite paulistana que historicamente deram as costas ao Brasil. Exemplo que o foco do movimento é o desgaste do governo Lula é a pauta de reivindicações em que não cabem os desmandos no setor de segurança pública paulista, a situação da educação pública, a greve dos estudantes da USP, o buraco do metrô e o superfaturamento das obras do CDHU.
Apesar da fraqueza do movimento, vale a pena aprofundar um pouco mais a reflexão para entender melhor os acontecimentos: o “Cansei” é fruto da insatisfação da elite e de parte das classes médias com o governo: os mais ricos se irritam porque perdem espaço na agenda do governo federal, logo eles que sempre foram privilegiados. A revolta deste pessoal com o presidente Lula é ainda maior porque percebem que o governo é mais popular, tem um programa de inclusão bem mais arrojado que o de FHC, e está dando certo no campo econômico. Em outras palavras, os sucessos do governo só fazem deixar a classe alta e média burguesia ainda mais irritadas com o presidente-operário e seus ministros.
Tudo somado, a verdade é que a insatisfação dos ricaços, e dos que almejam chegar lá, existe desde o primeiro dia do governo Lula, mas estava latente. A crise aérea afetou diretamente esta turma, de forma que a popularidade do presidente neste segmento despencou, como atesta a pesquisa Datafolha. No povão, nem sinal de mudança – a turma deve estar achando até divertido ver o andar de cima passando por alguns apertos. De fato, “a dor da gente não sai no jornal”, reza o velho ditado: não há uma única matéria sobre “crise terrestre”, digamos assim, que afeta os pobres dia sim e outro também. Lula governa para essa gente, daí os índices de popularidade se manterem inalterados.
Vai ser assim até o fim do mandato: pobres de um lado, ricos de outro. Não é venezuelização porque Lula não é Chávez, mas, ao final, teremos um país dividido no que toca à avaliação do governo federal. Ao contrário do que muita gente diz por aí, eu avalio que isto é bom e deixa a política brasileira melhor e mais transparente, porque cada camada social terá a representação que lhe cabe.
Lado B, Cinema, Cultura, Jornalismo, Bossa Nova, Política, Futebol e Ctrl C + Ctrl V.
Fernando Costa
Fernando Costa, com apenas 30 anos, já foi vice-presidente da União Guarulhense de Estudantes Secundaristas (UGES), Membro da executiva da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES) e vice-presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Foi assessor parlamentar durante cinco anos e responsável pela apresentação de inúmeros projetos de lei. Atualmente é editor do Jornal Primeira Página e Diretor Presidente da Agência FFC Publicidade.
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